quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

No Movimento das Nuvens Negras Relampeja, mas não Chove


Abrindo espaço em omundomaia para o professor Flavio Leandro dar o seu recado. Belo texto que senti-me na missão de compartilhar: 


Meus Amigos e Minhas Amigas.

A imensa quantidade de movimento negro – que há décadas desmoraliza, cria constrangimentos, carnavaliza, usurpa, barganha e deteriora a legítima e justa causa negra – tem que ser definitivamente extirpado das fileiras das lutas de todos nós, negras e negros brasileiros. Se seus militantes julgam ter dado a sua contribuição à raça, tudo bem; peguem o chapéu e vão descansar. A causa negra não pode mais ficar subservientes de partidos políticos, de governos e nem de políticos que usam-na para os seus propósitos eleitoreiros.  Deixem os que realmente desejam uma luta verdadeira e de vitórias avançar com a causa.

No Brasil há milhares de siglas tuteladas por partidos políticos, por governos e subsidiadas com o dinheiro público. E resultado das lutas conquistas dessas siglas é sempre o mesmo: encontros com não sei quem, não sei aonde, para fazer não sei o quê; criada mais uma entidade de defesa quilombola (são milhares sem a participação de Quilombolas legítimos); discutidas mais ações afirmativas para a igualdade racial; fomos eleitos membros do conselho político-tutelado pelo nosso trabalho que não dá em nada; recebemos o premio “pouca bosta” pelo nosso trabalho em coisa nenhuma... e os reais, justos e verdadeiros benefícios para a raça negra ninguém sabe ninguém viu.

O que atrapalha, sobremaneira, (não traz resultado e não faz a luta da causa negra avançar) é a notada segmentação ideológica, política e a divergência religiosa que divide os movimentos negros em verdadeiras facções. É movimento negro do DEM; do PSDB; do PT; do PP; do PC do B; do PCB; do solidariedade; movimento negro do PSD...  Todos pajens e miquinhos amestrados dos Cesar Maias, Família Sarney, Renans Calheiros e dos Josés Dirceus da vida. Uma vergonha!

                          
Nos Estados Unidos da América uma entidade e uma única sigla – a NAACP; Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (em inglês: National Association for the Advancement of Colored People) – desde a sua fundação, em 12 de Abril 1909, obteve conquistas que verdadeiramente merecem o título de histórica.  E nunca viveu sob as rédeas de partidos ou de qualquer político, nem tampouco de qualquer religião, ainda que muitos de seus líderes pertencessem a inúmeras denominações e tendências religiosas diversas. 

A NAACP sempre combateu duas frentes primordiais: a da educação e as das questões judiciais, a exemplo dos processos impetrados contra as chamadas Leis de Jim Crow, que privavam os negros de direitos civis.

                              

E no Brasil? Quais as ações dos milhares de movimentos negros que trouxeram ou trazem benefícios à causa negra?
Frases feitas, discursos panfletários tipo, nossas conquistas históricas. Conquistas históricas com racismo em ascensão – exclusão do negro nas esferas sociais; dependência de cotas para acessar universidades e serviços públicos; absurda diferença salarial em relação ao cidadão branco; ausência do poder público em regiões e áreas habitadas por maioria do contingente negro; abandono total das Comunidades Quilombolas; exclusão dos heróis e heroínas negras nos compêndios de História do Brasil; exclusão dos escritores e das escritoras negras nos compêndios de Literatura Brasileira e nas principais feiras literárias no exterior; e uma infinidade de outras mazelas – não são conquistas. São vergonhosas derrotas. Derrotas históricas, isso sim.

Qualquer ato ou manifestação negra promovido pelo movimento negro termina em culto evangélico e ou em culto de matrizes africanas. Assumem descaradamente o samba do crioulo doido e da nega maluca. É muito surreal imaginar o homofóbico e racista pastor Silas Malafaia se confraternizando com uma Yalorixá no Memorial Zumbi dos Palmares. O sentido paradoxal dessa salada pseudo-ecumênica é a guerra da intolerância religiosa que assola os dois lados. 

A legítima luta da causa negra requer a respeitabilidade e aceitação das diferenças, mas sem carnavalização. Há uma emergencial necessidade de convergir e irmanar todos os negros e negras numa só luta, num só propósito, independente de religiosidade ou de ideologias políticas. Agrupar evangélicos, candomblecistas, umbandistas, católicos, mulçumanos, judaizantes, budistas, seguidores de Jah e outras crenças, independente de denominação, faz-se necessário. Promove o fortalecimento da raça e dá avanços e vitórias à causa negra

Passeatas e eventos diversos, relacionados à causa negra, têm que ter objetivos e propostas relacionadas à causa negra. Não pode fugir disso. A religiosidade tem que ser cultuada no espaço específico: nos seus templos.

É o sonho de a negritude brasileira ver a raça irmanada numa só luta, num só propósito, numa só causa, num só ideal que englobe todos os nossos desejos e anseios... Martin Luther King era pastor protestante, e nunca um ato liderado por ele teve conotação ou terminou em manifestação protestante. Por isso, a causa que ele defendia conquistou vitórias; ele deu sua própria vida, mas deixou legado e entrou para história.

Meus filhos (as) e netos (as) tem demonstrado grande preocupação com o meu desabafo, insatisfação e indignidade contra a negociata da causa negra promovida por essas inúmeras e entidades e movimentos negros. Visita e telefonemas à Secretaria de Estado, no qual sou contratado como Professor, pedindo a minha cabeça (sou ó único Professor negro num total de 46 professores); abordagens grosseiras nos eventos negros em que sou (e era) convidado; e-mails ofensivos; vírus endereçados ao meu coreio eletrônico... É o famigerado racismo interno. O mais cruel de todos porque o racista tem a mesma cor da pele. E por ironia, sarcasmo ou deboche são das fileiras dos negros.

O meu pensamento e ação não é o de detratar ou de tirar o pão da boca dos que se alimentam do regurgito político partidário nas quais estão encabrestados, mas o de exigir dignidade, respeito e seriedade na legítima luta da causa negra.

Solano Trindade, um dos maiores poetas brasileiro – injustamente excluído dos compêndios de literatura brasileira – também já demonstrava nos seus poemas a sua indignação contra os negros exploradores da raça negra: Negros que escravizam e vendem negros na África não são meus irmãos. Só os negros oprimidos escravizados em luta por liberdade são meus irmãos. Para estes tenho um poema grande como o Nilo.

Abraços a todos.

Flávio Leandro
Cineasta; Professor de Produção de Cinema e Vídeo; Professor de Produção Teatral.


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