terça-feira, 28 de março de 2017

O texto poético e engajado de Elaine Marcelina


Mundo Maia abre espaço para Elaine Marcelina, escritora de Vila Aliança, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ela, que é graduada em História, Mestre em História Social e doutoranda em educação pela Universidade do Estado Rio de Janeiro (UERJ) integra o corpo docente da pós-graduação "Estado e Relações Etno-Raciais", na Universidade Castelo Branco, em Realengo. Entre o amor pelo oficio de educadora e a vocação para a literatura vive Elaine, que tem seis livros lançados. Confira um pouco de sua trajetória que ela generosamente divide conosco.

Por Carlos Maia

Elaine Marcelina é uma mulher comprometida com, o que faz. Mesmo com dificuldade de locomoção - estava com o pé direito torcido - ela foi ao local marcado para entrevista: A Praça Padre Miguel, no bairro de Realengo. Ela veio de Campo Grande, também na Zona Oeste do Rio. Dificuldades nunca impediram a escritora de ir de encontro aos seus sonhos e objetivos de vida: "Observar o cotidiano duro e muitas vezes cruel me inspirou a falar de mulheres, esse sempre foi o meu foco, pois cresci vendo minha mãe e minhas tias trabalharem como domésticas. Eu tomava conta dos meus quatro irmãos em Senador Camará e por isso resolvi ouvir mulheres, a escuta é muito importante; A mulher negra negra de minha obra surge dessa percepção", afirma. A sua vivência está em seus livros e também no seu dia a dia de professorara: "Amo estar na sala de aula. Digo aos meus alunos que lá é o meu tablado, pois ali continuo minha militância com as questões raciais e da vida de uma forma em geral." Sua história, inclusive, serve de inspiração para muitos jovens de origem pobre como a sua: "Muitos alunos, vizinhos, amigos, familiares se espelham em mim; tem onde se ver, desperta o sentido de identidade em alguém é muito bom e traz muita responsabilidade também." Além desses, outra que segue seus passo é sua filha, hoje com doze anos, que escreveu seu primeiro livro aos cinco. Além de escrever a jovem também faz teatro e toca violão.


Literatura é o alimento de Elaine, que lê de tudo, mas suas referências são Carolina Maria de Jesus, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Nei lopes, Lia Vieira, Ana Cruz, entre outros. Para ela o cenário para os novos escritores é tão complexo quanto viver no Brasil. A escritora nos lembra que antes só a elite escrevia. Hoje tem todo uma nova leva de escritores vindos da periferia, mas é muito difícil conseguir visibilidade. Ela mesma não consegue viver da dua escrita e sim da atividade de professora, que inclusive alimenta economicamente a atividade de escrever - "Eu hoje sou uma intelectual nas regras dessa sociedade, entretanto moro na periferia." A estrutura hierárquica e desigual do nosso país também é refletido no fazer artístico: "É como se ainda houvesse Casa Grande e Senzala, eles ditando as regras e nós cumprindo tudo calados. NÃO MAIS, entende? Estamos lá pau a pau com quais forem as regras que eles puserem na mesa, nessa hora eles surtam!" Assim Eliane afirma seu engamento social, racial e político através da letras: "Ser escritora da Zona Oeste é batalhar pela visibilidade da minha escrita, que não perde nada para a de ninguém," sentencia.








Elaine vê como lamentável a atual situação política do Brasil: "Temos um presidente ilegítimo, que não foi eleito e não houve justificativa para o impeachment, o que configura golpe. Estamos vivendo os dias mais duros desde o retorno da democracia ao Brasil. Vivemos um retrocesso apoiado pela mídia e por essa elite que deseja que retornemos aos tempos da Casa Grande e Senzala," nos diz.

Confira abaixo a participação de Elaine Marcelina no Conexão das Artes:
     

Além de suas intensas atividades nas salas de aula e como escritora, Elaine ainda consegue tempo para coordenar um sarau na Zona Oeste, o "Sarau Aya, Caravana da Ousadia Literária." Em 2016 foram quatro edições. Em 2017 ela pretende levar o formato para as escolas. Para terminar nossa artista termina com uma mensagem para todos: "Jamais desista dos seus sonhos, eu sonho todos os dias, tento realizar sempre, por isso venho quebrando paradigmas com minha história de vida. Se desejarem escrever estou à disposição para falar de literatura, de mercado editorial e de minhas experiências."

Parabéns, Elaine, que sua arte continue atingindo mais e mais pessoas! 
Elaine Marcelina e o repórter Carlos Maia
Livros lançados: 
1. Mulheres Incríveis 1 ed. (2008) 2. Emoções Reveladas 1 ed. (2011) 3. Mulheres Incríveis 2 ed. (2014) 4. Mãe Regina Bangbose: uma história do sagrado, ensaio. 1 ed. (2015) 5. Mulheres incríveis 3 ed. (2016) 6. As coisas simples da vida 1 ed. (2016)





3 comentários:

  1. Parabéns ao blog pela iniciativa em entrevistar a escritora Elaine Marcelina. Realmente a história de Elaine inspira muitas mulheres negras. Ela é uma mulher incrível!

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  2. Obrigada querida, feliz por suas palavras.

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  3. Parabéns Maia, parabéns Elaine! Nos vemos nesses grandes exemplos que têm que ser levados às praças e ruas da nossa Zona Oeste.
    O que temos visto é cada vez menos a valorização do que é essencialmente nosso, para valorizar o que já vem empacotado por "eles". Salvemos nossas raízes para mostrá-las ao mundo!!!

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