terça-feira, 15 de outubro de 2013

Era uma vez em 'Frankfurto' (Milton Cunha)

Texto bacana de Milton Cunha ( carnavalesco e Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ) sobre a ausência de escritores negros e indígenas na Feira de Frankfurt


Deus salve as coisas que os pretos nos ensinaram: quadris na dança e capoeira, feijoada e cachaça, dribles de craques
O Dia Rio - Merda no ventilador na Feira do Livro em Frankfurt, cujo grande homenageado é o Brasil, o que faz com que o dinheiro dos nossos impostos seja utilizado para bancar a festa que movimenta o mercado das editoras, que lucram muito dinheiro por tabela. Divulga o país? Para o bem e para o mal. A imprensa alemã está procurando os escritores negros em nosso Pavilhão. Encontrou um entre os 75 autores convidados para representar nossa literatura. E se assustou ao constatar nenhum autor indígena. Estão certos, estes caras-pálidas!

E isto virou quizomba, com declarações acusando e se defendendo. A ministra da Cultura, Marta Suplicy, diz que o critério foi “qualidade literária” e não cor da pele. Faltou dizer que quem define qualidade literária são os brancos, e aí não tem cota que ajude. O cânone é de sinhazinha, e a senzala que se exploda. E nada é mais descabido que trecho do discurso da presidenta da Academia Brasileira de Letras (li no Anselmo Goes) que disse que “somos mais que isso”. Mais que o quê, Ana Maria Machado?

“Mais que o corpo em que o cérebro costuma ser esquecido, como se não tivéssemos espíritos”. Mas este corpo descerebrado e desespiritualizado produz o quê, presidenta? “Celebração da dança, da música, do futebol, da capoeira e outros esportes, da sensualidade, das peles bronzeadas que se exibem nas praias, do Carnaval, dos sabores da caipirinha. Somos mais que isto”. Nossa, vocês acham que isto é coisa de corpo com cérebro esquecido? Nem precisa ser mais que isto! Eta povo inteligente este, que sabe que vida sem festa, lazer, exercício físico e celebração não está com nada. Isto que é vida boa, o que deve incluir, sempre que o estudo e o dinheiro derem, um livro para uma imersão no fantástico universo da ficção.

Mas livro 24 horas ao dia? Cruzes. Deus salve as coisas que os pretos nos ensinaram: quadris na dança e capoeira, feijoada e cachaça, dribles de craques com gingado, enfim, acho que não somos MAIS que isto, somos isto e TAMBÉM um pouco de chá soçaite nas Academias, clássico no Municipal, Machado de Assis. Viva o gabinete de ar-refrigerado, mas sem menosprezar a praça pública. E devo confessar que a parte que mais gosto é a da sensualização: isto é fundamental à vida boa. Aliás, literatura chata esta que acha que pode ser mais ou melhor que as outras coisas boas, né? Imagina sexo só nos livros? Brasileirada, continuemos assim: todos indo à praia com um romance, mas de vez em sempre olhando e catando a vida na barraca ao lado, que está de sunga e biquíni lá fora, pronta para o amor real. Acho que, se falta cérebro e espírito, é no reino de ‘Frankfurto’!


Para quem quiser contato com o autor do texto, aí vai o E-mail: chapa@odia.com.br

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