quarta-feira, 20 de março de 2013

O processo de evangelização do negro no período colonial brasileiro

        Este foi um trabalho feito na minha pós graduação em Ciências da Religião. Ele aborda, dentro das limitações de um trabalho, como se deu o processo de evangelização do negro dentro do sistema colonial brasileiro. 
Carlos Maia




Introdução

                      Em 1988, ano do centenário da abolição da escravidão em nosso país, a CNBB (Comissão Nacional dos Bispos do Brasil) lançou como tema da Campanha da Fraternidade o tema “Fraternidade e o Negro” com o lema “Ouvi o Clamor deste povo!” Entretanto até chegar a uma consciência sobre a situação do Negro no Brasil a Igreja passou por um longo de período conivência com a escravidão negra. Na Europa eclodiam guerras religiosas entre católicos e protestantes e ambos acusavam o outro de ser infiel aos desígnios de Deus. Se entre os próprios europeus havia divergências a respeito da fé, naquele ambiente era praticamente impossível reconhecer no Outro que professava uma crença totalmente diferente alguma dignidade. Com essas palavras de forma alguma pretendo aqui amenizar os crimes, pois aceitar as violências de ontem seria justificar as de hoje com base na ideia de que “naquele tempo era assim”. A violência nunca foi aceitável, a não ser na cabeça das classes dominantes.
               Não faltaram justificativas teológicas e ideológicas para a opressão do negro. Este trabalho pretende mostrar como se deu o processo de evangelização do negro dentro das condições dentro daquele período histórico.  A religião dele, sua cultura e hábitos precisava ser demonizada, reduzia ao nada. O padre Mira, que é uma das bases deste trabalho com seu Livro “A Evangelização do Negro no Período Colonial Brasileiro”, tem palavras valiosas para nós: O eclodir dos cultos afro-brasileiros até pouco tempo reprimidos sem que possamos compreender o que se passa. As massas oprimidas se identificam com ele”.
               Ao tratar da escravidão é preciso logo de início romper com um mito, aceito como verdade no inconsciente popular: A de que o negro africano era raça mais preparada para o trabalho braçal e, portanto se adaptou facilmente a escravidão. A história da escravidão negra é também a história de revoltas, fugas, resistência e do medo que os senhores sempre tiveram da massa de negros.  A começar a palavra escravo que em inglês é slave e em espanhol e esclavo, vem de Eslavo, pois estes eram dos principais escravos dentro do império romano. O negro se tornou escravo nas Américas devido às condições daquele momento e não por um determinismo de qualquer ordem.

Evangelização ou doutrinação?
“Meu filho, foi Deus quem te deu cor preta 
Na dúvida, amor, vem me perguntar, não sofre não 
É São Benedito o estafeta do Senhor 
É negra a madrinha dessa nação”
Cor Preta – Paulo César Feital
                         O discurso dos pioneiros da evangelização do Brasil, infelizmente não teve a mesma correspondência na realidade. Aquilo que eles queriam nem sempre, ou poucas vezes foi levado a prática, nem sequer pelos próprios missionários. O missionário nunca conseguiu entender a alma do colonizado, impunha categorias que eram europeias dentro de um contexto não europeu e não conseguia obter os frutos desejados. O discurso evangelizador no Brasil dos tempos coloniais adquiriu três formas de expressão: A de um discurso universalista, doutrinário e guerreiro.
1-      Discurso Universalista
Universalista no sentido de desconhecer fronteiras, e ccaiu como uma luva para o cristianismo, religião que pretende ser universal (O próprio Cristo disse: “Ide por todo o mundo e evangelizai.”). Neste contexto surgiu a lenda que o apóstolo  Tomé andou por terras distantes – Brasil e as crenças indígenas eram “vestígios das pregações apostólicas desvirtuadas pelos selvagens”. Assim justifica-se a todo custo a presença dos conquistadores e sua belicosidade.

2-      Discurso Doutrinarista
                    Aqui é dada muita ênfase a memorização, a repetição e à fórmulas ensinadas. A adesão do conquistado era medida em quanto tinha decorado das fórmulas ensinadas. O comprometimento com Jesus Cristo fica restrito a memorização, que muitas vezes incluía orações em latim.

3-      Discurso guerreiro
               A suposta anormalidade das culturas indígenas e a rebeldia negra deveriam ser combatidas a ferro e fogo. O cristianismo que nos seus primórdios denunciava a violência viria a incorporar a violência em sua mentalidade. Dentro deste contexto, os santos assumem também um caráter guerreiro. Santo Antônio na mão dos portugueses se torna um santo militar que em 13 de Setembro de 1685 é convocado a lutar contra os negros em Palmares.


A justificativa
            O Negro escravo deveria se sentir agradecido ao branco, pois a escravidão era uma forma de redimi-lo espiritual e fisicamente. A ideia vigente é de que no continente africano estavam nas trevas da ignorância e o Brasil seria uma espécie de purgatório, onde se purificariam para chegar aos céus. Não se sabe ao certo quando surgiu a ideia de que os negros seriam descendentes da raça três vezes maldita de Cam (cf. Gên 9,18-27). Essa visão serviu para que no Brasil colonial a escravidão não pesasse nas consciências dos Senhores, pois a própria bíblia justificava a exploração. À luz de uma exegese séria e isenta, vê-se que a maldição não é de ordem étnica, racial, mas é dotada de um profundo conteúdo teológico.

Os Sacramentos e o negro
Batismo- No contexto colonial o batismo quase perde sua função de sinal de adesão livre de uma pessoa ao projeto de Deus para ser um instrumento de dominação. Desta forma vemos como o negro foi batizado de forma superficial e compulsória. Vindo do continente africano, aqui ganhava uma nova identidade e um nome cristão com o batismo. Mas no fundo, continuava a praticar suas crenças, pois não se apaga a identidade de um povo, de uma pessoa tão facilmente. A prática batismal foi imposta ao negro, não sem resistência, como no caso das culturas sudanesas com forte influência maometana.

Crisma- Em respeito ao sacramento do Crisma não há nenhum registro de aplicação deste sacramento aos negros segundo as pesquisas do Padre Mira.

Eucaristia- Este sacramento foi bastante secundarizado, cedendo lugar ao sacramento do Batismo. Se tornou um sacramento de “rito de passagem”  para a partir daí entraram na sociedade civil. Foi sem dúvida um sacramento dificultado.

Confissão- Em contraste com a quase total ausência do sacramento da confirmação entre os negros, o sacramento da confissão sempre esteve à disposição dele, embora os sacerdotes fossem em muitos casos, relapsos em ouvir suas confissões.
Unção dos Enfermos (Extrema-Unção) Nas pesquisas de Padre Mira também não encontram registros da aplicação deste sacramento aos negros. O que apareceu nas pesquisas foi o Viático no momento em que o negro se encontra às portas da morte. No mais, o negro morria sem este sacramento o que não deixou de causar espanto nas mentes mais esclarecidas do período colonial.

Ordem- Dentro do sistema colonial brasileiro era praticamente impossível o negro se tornar padre. O candidato ao sacerdócio não deveria ter parte de nação hebreia ou qualquer outra infecta; Ou de negro ou mulato.

Matrimônio - Pouco importava aos senhores que os seus escravos contraíssem o matrimônio, pelo fato de que o mesmo cria vínculos indissolúveis, não podendo os escravos serem separados ao bel-prazer de seus senhores. O cânon orientador para que o escravo pudesse contrair matrimônio é dado pelas Constituições do Acerbispado da Bahia: Tal sacramento ao ser recebido pelos negros deveria implicar suas implicações e sentido.

O Catolicismo Negro
Discriminado, o negro gradativamente transformará o seu catolicismo em uma forma velada de protesto social e racial.Este protesto toma forma por meio das confrarias, manifestações evidentes das divisões sociais. O jesuíta em sua catequese estava convencido de que  as verdades de fé deveriam ser adaptadas à mentalidade do negro, visto como uma criança, no tocante ao desenvolvimento intelectual. Para os jesuítas, “tratava de atraí-los pela música que adoram, pela dança, que é sua única distração, pela vaidade, o amor aos títulos e cargos decorativos”. Destacam-se as festas de São Benedito, as congadas, festas de Nossa Senhora do Rosário.

E a religião africana no Brasil?
         Naquele contexto de escravidão, a religiosidade negra tornou-se diferente da de seus antepassados. Os escravos não vinham todos de um mesmo local e aqui chegaram diversas culturas. Uma forma de opressão é achar que “todos os africanos são iguais”. A única religião permitida era a religião “branca” (o catolicismo).  Sendo assim a prática da religião era disfarçada nos cultos católicos, associando os santos da igreja aos orixás. Como dito acima, a religião africana ganhou contornos diferentes aqui: Não fazia sentido pedir fecundidade às mulheres para seus filhos serem escravos. Não fazia sentido pedir boas colheitas, pois beneficiaria os brancos. Era mais urgente pedir secas, epidemias destruidoras de plantações. Assim eram mais valorizados as divindades da guerra (Ogum), da justiça (Xangô), da vingança (Exu).

   No que diz respeito ao controle social, era importante que se aflorassem manifestações sincréticas, pois os senhores perceberam que negar totalmente um único alívio possível para o cativeiro negro se converteria em pouca saúde, o que equivale  a pouca produtividade.


Conclusão
      A mentalidade da colonização em relação ao negro ainda é muito presente nos dias de hoje como por exemplo na ideia de “pacificação” das favelas, nas críticas e na demonização feitas a musicalidade negra jovem (o funk carioca).  É muito difícil entender o que se passa hoje em nosso Rio de Janeiro, em nosso Brasil se não tivermos em mene como se deu o processo de evangelização do negro no período colonial. Termino o trabalho citando um trecho da música Contraste Social do rapper MV Bill:
“Porrada que a gente levava no tronco agora levamos na rua e pronto
Ficamos com a boca fechada porque não queremos ir pro inferno
Te mandam pro saco dentro do buraco esse é o mundo moderno
Tiro de 12, metralhadora e se acabou a vida de mais um irmão que pelos direitos reclamou
Fique ligado, nada mudou, veja o que se passou
Chibatada que a gente levava no tronco não cicatrizou”
                                                                        MV Bill –Contraste Social
Referências bibliográficas
MIRA, João Manoel Lima – “A Evangelização do Negro no Período Colonial Brasileiro” Edições Loyola 1983
SOUZA, Laura de Mello – “O Diabo e a Terra de Santa Cruz” Cia das letras, 1998



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