sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A inadmissível ousadia de Ana Paula Arósio



               
Muito bacana este texto. O encontrei compartilhado no facebook e compartilho 
aqui:                           Não durou muito mais do que duas semanas a “retomada” da carreira da atriz Ana Paula Arósio que alvoroçou a imprensa de celebridades brasileira desde a segunda semana de outubro. Ana veio a Brasil gravar cenas do filme A Floresta Que Se Move, de Vinicius Coimbra, e teve oportunidade de experimentar um (dis)sabor que não sentia desde 2010. Viu duas fotos que fez no cabeleireiro aparecerem em todos os sites de celebridade do Brasil, viu uma entrevista que deu para a equipe de filmagem se transformar em pauta do Fantástico e se viu transformada em assunto mais uma vez.
Terminou de gravar suas cenas e voltou para Londres, onde mora atualmente com o esposo.

         Estamos todos com saudade de ver Ana Paula atuando, aham, mas estamos muito mais nos corroendo de curiosidade de saber que diabos passa na cabeça de alguém jovem e bonita ao largar a maior vitrine do Brasil para criar cavalos em Santa Rita do Passa Quatro, aos 35 anos, logo após casar-se com o arquiteto Henrique Pinheiro.

    Ela deve estar guerreando com a balança – dizem alguns. Ela nunca se recuperou do trauma de assistir o namorado, Luiz Carlos Tjurs, matar-se com um tiro na cabeça – dizem outros. Drogas? Indefinição sexual? Esquizofrenia? Abdução alienígena? Esoterismo? Algum motivo deve ter. Em nossa cabeça, não é razoável, tampouco aceitável, que alguém simplesmente não queira viver no                     universo dos famosos. Que alguém atue pelo prazer de atuar, ou cante pelo prazer de cantar, que faça arte por causa da arte, mas não pague o preço do estrelato. Que alguém esnobe o universo pelo qual a maior parte de nós daria um braço.

                          E, vou dizer, Ana Paula não é a primeira nem será a última a recusar a vida de famosa. O caso mais clássico, claro, é o de Greta Garbo, que se aposentou, também aos 35 anos, após as demolidoras críticas ao filme Duas vezes meu, de 1941, e nunca mais deu entrevista nem se deixou fotografar. Cary Grant abandonou o cinema em 1966, para acompanhar o crescimento de sua filha Jennifer e nunca mais filmou até sua morte, vinte anos depois. Sean Connery está sem pisar em um set de gravação desde 2006, e desde 2012 sumiu das aparições públicas. David Bowie estava envolto em boatos sobre seu estado de saúde desde que deixou o showbiz 2006 até lançar um álbum novo em 2013 – e alguns videoclipes, mas nenhum show e nenhuma entrevista de divulgação.

                      Da mesmíssima idade de Ana Paula, a cantora americana Lauryn Hill sentiu-se pressionada pela fama após as oito milhões de cópias de seu único álbum, The Miseducation of Lauryn Hill (1998) e decidiu transformar sua carreira numa mistura de sabático, shows e canções esporádicas, extravagências públicas e peregrinação espiritual. John Lennon abandonou a música em 1975, também aos 35 anos, pelo mesmo motivo de Cary Grant, cuidar de seu filho Sean, que hoje tem a mesma idade de Lauryn Hill e Ana Paula Arósio, 39. Em seu álbum de retorno, Double Fantasy, o ex-beatle apresentou uma canção sobre seu isolamento: “As pessoas dizem que sou maluco fazendo o que estou fazendo/ elas me dão todo tipo de conselhos pra me salvar da ruína/ Quando eu digo que estou OK elas me olham como se eu fosse um esquisito/ Evidentemente, você não está feliz agora que não pode jogar o jogo”. “Watching the wheels” só foi lançada como single depois que o cantor foi assassinado, em dezembro de 1980. Talvez seja a mais bela canção do disco.

         A fama é sedutora, mas todos que dela provam são unânimes em contar do pedágio caro demais no caminho até ela. São os falsos amigos que se aproximam, circunstanciais, são os amigos verdadeiros que se afastam, desconfiados. É a apavorante sensação de que a imagem que você vê refletida no espelho já não pertence a você, mas a uma multidão de pessoas que você não conhece – os “fãs”. Todo mundo tem uma opinião muito fundamental sobre sua roupa, seu cabelo, suas espinhas, seus amantes, seu peso e até sobre suas opiniões.

         A fama é cara, financeiramente falando: chega a ser ridícula a quantidade de celebridades que gasta mais em assessores, viagens e jantares do que lucra que com sua, bem, “arte”. A fama é passageira: é preciso devorá-la com apetite antes que o encantamento passe, mesmo que algo de sua alma fique destroçado pelo caminho. Pode ser que passe logo, pode ser que não passe nunca, pode ser que a fama nunca venha. Porque a fama é falsa: depende muito pouco do talento do famoso, e muito de uma série de circunstâncias culturais que não estão na mão de ninguém.

     E, especialmente, porque a fama não parece satisfazer os anseios mais urgentes daqueles que a alcançam – como ver os filhos crescerem, cuidar de cavalos, ir à padaria ou cortar os cabelos sem que isso se transforme em um evento nacional."
Por Ricardo Alexandre (R7)

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